autoria, edição e produção de Augusto Moura Brito

21
Jul 13

O simbolismo repetia-se sempre que me deslocava a Loriga!

…Abrir a porta de casa e dirigir-me apressadamente para a varanda e contemplar a paisagem que a minha infância viveu, corporizou e me ensinou a amar. Gestos simples, eivados de uma singeleza angélica, reveladores de sentimentos profundos para quem aprendeu a gostar de Loriga.

Daquela vez, o meu gesto rotineiro foi abalado e violentado por aquilo que a minha retina ia vislumbrando e o meu cérebro registava. Tive, repentinamente que conter a emoção. Não queria acreditar naquilo que o meu subconsciente já tinha diagnosticado.

Incrédulo, quis “in situ” observar e avaliar tamanha desgraça e incomensurável infâmia. O conjunto de 4 (quatro) moinhos hidráulicos situados no Regato, tinham sido destruídos.

Como foi possível camuflarem-se em terramoto devastador, logo ali naquele lugar e, arrasar mais um legado patrimonial representativo de uma das mais peculiares atividades de economia popular e história local?

Como foi possível, os poderes autárquicos representados pela Assembleia Municipal, Câmara Municipal, Assembleia de Freguesia e Junta de Freguesia permitirem tão avassaladora destruição?

Como foi possível que mais uma corporização da memória coletiva dos homens, tenha sido vilipendiada por pessoas sem rosto, sem alma e sem passado?

Como foi possível o PNSE tivesse também ficado indiferente, pois, de restrições sabem eles, a mais esta aberração ambiental e natural?

Mais uma vez, na vila de Loriga, tudo se permite e acontece. O património, a base identificadora e o suporte jurídico, histórico e cultural do povo a que pertence, vai-se desvanecendo como o foi no passado…

Hoje, como o foi também ontem, talvez daqui a alguns anos seja ainda pior, não nos permitirem ostentar uma marca fortemente artística e digna da nossa memória colectiva. A culpa é de quem? Do desconhecimento e intolerância do homem… melhor, dos homens irresponsáveis de Loriga!...

 

Breve enquadramento histórico dos moinhos

 

Desde o século I (85 a.C.) há referências sobre a existência de moinhos hidráulicos. O poeta Antípatra de Tessalónica, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, fala-nos da fadiga provocada por um desses moinhos. “Pára de moer o grão, ó mulher que te esfolfas no moinho, dorme até tarde, mesmo que o canto do galo anuncie a alvorada, porque Deméter ordenou às Ninfas que realizem por suas mãos o trabalho, e, inclinando-se no cimo da roda, elas fazem girar as pás que movimentam a pesada pedra molar de Nysis”[1].

No ano 65 a.C. segundo Estrabão, geógrafo grego do século I a.C., no palácio de Mitrídates, o rei de Ponto, em Cabira, utilizava-se um maquinismo que alguns pensam corresponder a um moinho hidráulico. O desenho mais antigo de um moinho hidráulico de roda horizontal, data mais ou menos, do ano de 1430 e está conservado na biblioteca de Munique.

 

O moinho vertical foi descrito pelo arquiteto e engenheiro romano Vitrúvio, aproximadamente no ano 27 a.C.,e, seria mais tarde, decisivo na “industrialização” da Europa medieval. Estes mais potentes, eram acionados pelos romanos com a água proveniente dos aquedutos. Desenvolvem-se na Gália durante o século IV. Porém, é na Provença, mais concretamente em Barbegal, perto de Arles, que encontramos a mais notável das construções hidráulicas romanas jamais construídas pelos engenheiros do império Romano. No século XII, provavelmente desde os finais do século XI, os moinhos de roda vertical constituem o tipo mais comum em toda a Europa. Em Inglaterra, no século XI, um moinho hidráulico servia em média 50 fogos.

Embora admitamos uma grande diversidade na sua distribuição, o seu elevado número ainda há alguns anos, facilmente visíveis e identificados na vila de Loriga, levam-nos a refletir no enorme contributo económico suportado e desempenhado por estas autênticas “fábricas hidráulicas”. Assim, ajudam-nos também a explicar, os consideráveis índices populacionais registados da comunidade loriguense residente ao longo dos tempos, inicialmente como agricultores e pastores, para mais tarde (depois dos meados do século XIX com a instalação das primeiras unidades fabris), como operários têxteis.

Os moinhos hidráulicos mais vulgares em Loriga, são os de roda motriz horizontal – moinhos de rodízio – todavia, é do interesse comum mencionar, os de roda motriz vertical – as azenhas.

Segundo Fernando Galhano, “nos moinhos de rodízio a água sob pressão é projetada sobre uma roda de penas, fazendo-a girar e com ela, diretamente, o veio, a segurelha, e a mó andandeira. Nas azenhas, a roda de água acciona um sistema de entrosga-carrete, e é este que está ligado ao veio, o qual movimenta a segurelha, e a mó andandeira. A roda vertical pode ser de propulsão inferior (azenha de rio), superior (azenhas de copos), ou média, de acordo com as condições impostas pela topografia local”[2].

Vejamos agora os esquemas segundo o mesmo autor:


 

Mecanismos do Motor

Figura 1

 

 Legenda Figura 1:

1   1 -   Cubo, por onde vem a áqua do exterior.

9- AguilhãodoEixo.

2  2 -  Esguicho, por onde a água é projetada sob forte pressão contra as penas do rodízio.

10- Urreiro, ou Arrieiro,que gradua o levantamento ou abaixamento da mó para calibrar a farinação.

3   3 -   Pelão ou Eixo.

11- Agulha

4   4 -   Rodas de Penas ou Penado.

12- Porca para accionar o Arrieiro por meio do Aliviadouro, que se maneja junto das mós.

 

5    5 -   Lobete  

de ligação.

13- Mó andandeira.

6    6 -  Veio.

14- Mó fixa, ou Pouso.

7    7-  Argolas.

15- Bucha de madeira, por onde passa o Veio.

8   8-  Rela, onde apoia e gira o Aguilhão do Eixo.

16- Segurelha.

 

 

 

Mecanismos de moagem

Figura 2

 

 Legenda Figura 2:

1   1- Moega,onde se deita o cereal a moer.

4- Tremonhado, anteparos para evitar que a farinha se espalhe

2   2 - Grelha, por onde este corre para cair entre as mós.

5- Taleiga, saco que levará a farinha.

3  3 -Chamadouro, para provocar o correr do grão.

6- Telhadoiro, dispositivo para paragem automática do moinho

 

 

 

Pelas de rodízio

Figura 3

 

 

 

Penas de rodízio

Figura 4

 

 

Rodízios

Figura 5

 

 

Urreios e Relas

Figura 6

 

 

Para finalizar, voltamos a colocar um desafio aos professores de EVT, EV e História da escola Dr. Reis Leitão, também aos professores do 1º ciclo, para procurarem agendar no currículo das suas atividades didáticas uma unidade de trabalho relacionada com o levantamento e recolha dos elementos ainda disponíveis, numa clara e inequívoca tentativa de defesa e preservação do nosso património e memória local. A “ideia” de museu existe. O acervo recolhido encontra-se devidamente registado e inventariado, inicialmente colocado em exposição na antiga Casa do Povo, mas hoje, dizem alguns… na sede da Junta de Freguesia de Loriga, irrecuperável e desaparecido, dizem outros…!

Apoiemos a ideia e não reivindiquemos a utopia. Porque pensamos que a ciência museológica decorre da investigação museográfica, foi esse o nosso trabalho realizado com as cerca de trezentas peças recolhidas em Loriga…, vamos agora tornar esse ideário sustentável e, quiçá, duradouro e exponencial.

                                                                                                                                                           

Augusto Moura Brito

        (2005-2013)

 


publicado por sacavem-actual às 10:46

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